domingo, 18 de maio de 2014

tropecei no guarda-chuva; lembrei-me que chove amanhã

Ignobilidade. Espera-se apreendendo o que se esfuma pelos reflexos de superfícies transparentes. As imagens transfiguram algo de inútil para o que se ergue como algodão na mente.
Leviandade de espírito é quase um bem indispensável, mas sinto antes chumbo a deturpar-me uma autofocalização; não que muitas almas me acompanhem - e descobri que não as posso agarrar, que é mau e o mau não deve fazer-se -, não é algo estritamente necessário. Não, julgo viver de forma aceítável, mesmo com plena consciência de que condicionei uma realidade que se alia a um futuro próximo que tende a ter um humor perpétuo como o que tem teimado a instalar-se... e as repercussões são constantes.
A depressão é genérica. Ninguém tem depressão. É como um autodiagnóstico inócuo. O mal, creio eu, vem sempre da fome e eu gostava de ter menos.
As formas mal dizem o que queria ouvir, mas os vultos transmórficos também parecem estar com carência de desenvoltura das cordas vocais. Seria de salientar que organismos imaginários proferissem sons que não se assemelhassem a inspirações constipadas, próprias de uma inutilidade parasítica, que vive de relações de sucção com emoções ou positivismos que vagueiam, singelos e abrigados - ou tentam -, mas a chuva não poupa os que folgam em impermeabilizar-se.

domingo, 11 de maio de 2014

Pousada

Deitei-me no chão
De mãos na cabeça:
Já não havia portas para esmurrar.
Desespero irracional
- Quem me dera ser um cão
À espera que a vida esmoreça.
Acabei por me aborrecer...
O mundo é cal:
Branco todo e todo à volta;
Mas eu mostro-me sombra
Onde não há claridade.
Talvez só para contrariar,
Quiçá para atiçar uma revolta,
Já nem a alma me tomba
Para me corroer a dignidade.

Nada bate o quarto de hotel
Em que me escondi;
Nada abala a mente
De quem regressa...
Regressar ao papel,
Arrastar-me por aí;
O hotel mostra-me diferente
E a vida nunca mais começa.

terça-feira, 22 de abril de 2014

metodologia energúmena

Não temos método
Mas mantemos o critério:
Ensolaremos a névoa
Que nos turva o pensamento:
Larguemos os guarda-chuvas ao vento,
Sejamos molhados num todo;
Vamos lutar contra o império!
Ganância e arrogância à toa
E sem qualquer fundamento.
Tirem-me daqui, que mal me aguento.
Escala-se a modéstia
E deixa-se para trás o idiotismo,
Que pesos destes não se querem
Nem oferecidos!
Da compaixão não se denota réstia:
Lá foram os tropeções do companheirismo,
Otites em nossos tímpanos que nos ferem
Ferem-nos o cérebro, estamos fodidos.

pede-se perdão pelo palavrão indiciado no último verso deste pseudo-poema; apenas é qualquer coisa que descreve, numa palavra e a roçar a perfeição, o estado dos jovens pensadores portugueses. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

léguas em andas de madeira

Um humor
Num par de andas:
Uma mais alta que outra:
Renega os desapreços,
Os desapegos e os crimes da alma
Para poços e esconderijos.
Altivamente, um sorriso de calor,
Brisas que o trazem, brandas;
A nossa personalidade é pérola em ostra.
[Decaímos para a outra anda]
Um pavor,
Atiramo-nos pelas varandas -
Nas nossas mãos não se vê a palma -
Os dedos esmorecem, nem se sentem rijos.
Constante o desamor
E os enganos entre pernas bambas,
Levam-nos a coçar a crosta,
A rebentar a ferida,
A cair de costas.
Não temos humor,
E já pouco amor à vida.
Nem contra o que podes ripostas,
Desistimos do nosso fulgor.

sábado, 5 de abril de 2014

pouco perpétuo

A vida é um fungo, mas a morte também;
Não passamos de Natureza
Morta ou para matar.
Destruidores de lares
Pouco propositados,
Que divagam por todo o lado,
Pois todo o lado é nenhum.
Não somos nada por aí além,
Rogamos frieza
Nos arranjos que deixamos acumular,
Por perpetuarmos crença em altares;
Religiosidades de homens quadrados.
Queremos bons bocados,
Mas a estes não dedicamos tempo algum -
Porque não passamos de canalhas,
Bestas insensíveis,
Monstros de tropeções
Que roçam a má educação.
"Cuidado com o tronco onde talhas
O teu nome e o dos incríveis!..
Bastam uns borrões
Para dar à história um caixão."
Insensibilidade que transborda dos cortes -
Machadadas numa alma de remendos -
Só mostram o que já não há para ver,
Deixando a perplexidade do complexo
No ar, que penetra mentes.
Mentes, fracas, fortes.
Mentes.
Mentimos ao declínio do nosso ser,
Perdemos o nosso reflexo.
Como a Natureza se perde no resto.

segunda-feira, 24 de março de 2014

tropeções intercontinentais

Dançar sozinho;
Morrer no chão.
Sinónimos do que podia temer
Ao hiperbolizar uma raiva interior.
Corro por entre as árvores,
Porque nas pedras definho;
Achei o meu ser
Caído, calado da dor.
Fico imóvel, para que me decores.
Com cores me acinzentaste
Como se não passasse de carvão,
De detritos dessa natureza suja!
Mas recuso-me a ir assim:
Não sou manjar de vermes.
Bandeira a meia-haste,
Que se perdeu o coração
Da alma - e ela que fuja! -
E eles que correram por mim
Até tropeçarem, caírem nas dermes.

domingo, 16 de março de 2014

relato boémio

Eis que entro em casa: deparo-me com uma sagaz monotonia que, no escuro, me fustiga os olhos. O silêncio aconchegou-me, claro, mas deixou-me ao frio. Acabava a folia descontrolada e regressava à realidade da falta de descanso e das madrugadas mal dormidas. Pensei em acalmar o estômago e dar um descanso ao fígado com um pouco de chá; em simultâneo, tentava relembrar a noite que tinha passado e concluía que o meu organismo não tinha sido abusado em quaisquer termos. "Tranquilidade", pensava eu, "com os amigos que pudeste levar." Decidi, ao invés, cortar umas fatias de queijo fresco e comê-las depois de as polvilhar com algum sal - já não comia há coisa de 7 horas.
Sentei-me. Não, encostei-me ao balcão da cozinha. Via a desarrumação por mim criada ao longo de um dia despreocupadamente atarefado. Novamente, voltei a não prestar grande martírio ao que se erguia como um problema de espaço na bancada.
Eram qualquer coisa como 5 horas da manhã; não me lembrava da última vez que tinha olhado para o relógio, especialmente porque nunca mostrei grande importância a horários depois de chegar a uma combinação. Ocorreu-me que devia despir-me: [das sensações, dos risos, do calor] tirei as roupas, impregnadas com o cheiro de cigarros que haviam fumado para cima de mim. Vesti o pijama - ah, tremendo conforto que encontrava em peças de roupa de andar por casa -, mas continuava com reminiscências daquele passado recente, um possante hálito a cerveja ressequido nos meus lábios por não dar azo à minha fala há já uns tempos continuava a assombrar-me as vias nasais. Arrastei-me, mal me tendo nas pernas, para a minha escova de dentes e eliminei o que restava daquela noite. Deitei-me e juro ter ouvido um ou outro chilrear despropositado.
Julgando-me desapegado da vida boémia a que me tinha acostumado ainda agora, tornei para um e outro lado na almofada, suspirava, tirava as meias, puxava uma manta: não conseguia dormir; e isto era estritamente necessário, porque me esperavam algumas horas de atenção redobrada. Comecei, então, como remédio santo, a rebobinar. Julgo que o culminar da perfeição que se podia esperar de uma noite em honra de Luís de Camões só podia jorrar das cordas de um contrabaixo, numa dessas pouco iluminadas ruas da belíssima Lisboa.
Pensei em ignorar e continuar a minha marcha - como tantas vezes o faço durante a luz do dia -, porém, a luz [ou falta dela], aquele frio que me aquecia os ossos por não estar sozinho e estar com a melhor companhia e, muito provavelmente, as agoniantes dores nos músculos por desidratação fizeram-me parar por um pouco. Apenas ficámos, eu e a melhor companhia, a olhar o contrabaixista. Tocava como se não estivesse frio, como se não fossem 2 horas da matina, como se a vida devesse continuar com a total jovialidade e alegria - duas palavras praticamente sinónimas, queria eu - durante a noite. Deixámos-lhe umas moedas, acto ao qual sorriu e acenou levemente com a cabeça.
Visualizei a expressão do músico, imaginei-me a regressar à mão da melhor companhia e acabei a copiar o simples toque de simpatia do primeiro. Abri os olhos e voltei a fechá-los, simplesmente porque podia fazê-lo; disse adeus ao divertimento e encarcerei a felicidade que por aqui existia num compartimento algures, perto da glândula pineal, para a redescobrir quando toda a seriedade que a mim está reservada resolver passar - ou abrandar, talvez seja suficiente.