segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

tremor

Começar a existir consome.
Tu, que existes e és invariavelmente alguém,
Mostra que podes. Que és.
Alimenta-me de poesia.
Mata-me a fome
Mata-me o desdém.
Mata-me a mim, que derivo entre ser e existir.

domingo, 26 de outubro de 2014

pântanos engarrafados

Não gosto de garrafões meio-vazios.
Tamanha monstruosidade
Com um peso vazio de si:
Uma carcaça sem conteúdo
Que libera nada
E banha a alma aprisionada.
Plástico que se perde em rios -
Daqueles de verdade -
Onde, afogado, vivi;
Cego, surdo, mudo,
De personalidade impregnada
De cheiros e mente alagada.

sábado, 16 de agosto de 2014

entre a Olga e o café

Ia Olga, aromática,
Pelo que se podia adivinhar ser uma rua.
Rua estreita aquela -
Pensava para a chávena,
Perdido numa idiotice qualquer.
Mas os grãos de café da Olga
Não tornavam desperdício:
Nenhum caía, nenhum chorava.
Nenhum sorria, mas ela era pragmática.
A máquina era tão sua,
Tão singela,
Tal açúcar pertencer à cana,
Que ninguém a tomava por mulher.
Eram os grãos, Olga!
Os grãos eram estalagmites em precipício.
Ela corava,
Orgulhosa dos grãos que cultivara,
E fazia o melhor café num raio de 5 planetas e meio.
Raios, Olga..!
Que crime, que falácia tão brava;
A nada se equipara
Este pedaço de estrada, ou este freio
Que ruge de ferrugem,
Que grita de energia,
Que definha numa comodidade de grão.
Oh Olga,
Cobre-me de penugem,
Causa-me euforia,
E deixa que morra, sozinho, frio neste chão.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

imperial

Senhor desgosto,
Prazer!
Antíteses idiotas
Estruturam um prédio
Tapado pelos andaimes
Que me forram.
Estivesse eu disposto
De forma a entender
Que todas estas formas - portas -
Não são fuga do tédio;
São açaimes
Que me negam.
Negam-me e anulam-me
Como se fosse insignificante -
E talvez seja -
Porque este mundo nada me oferece:
Sou uma criança pobre
Num Natal constante (porque o Natal é quando um homem quiser, afinal).
Infame
O gratificante
Sabor da cerveja,
Que os lábios me humedece
Até que me invada a morbidez.
Fosse isto fatal,
Fosse isto sensatez,
Fosse isto o que parece,
Para me ir embora de vez.

terça-feira, 22 de julho de 2014

boa noite

"Começo a conhecer-me. Não existo." (Álvaro de Campos)
Existir é relativo e eu também.
Sou relativo a tudo e há coisas relativas a mim;
Mas não vejo reciprocidade.
Talvez me falte percepção,
Talvez me deturpe o desdém.
O "talvez" faz-se frenesim
Quando me revejo na cidade.
Aqui, só sou cidadão,
Não sou pessoa, não sou ninguém.
Aqui, não existo.
Passo-te ao lado
Como um jornal ressequido no passeio.
Resumo-me a isto:
Desfraldado
E completamente alheio
Ao que possas pensar...
Porque eu conheço-me e isso deixa-me triste;
Mas tu conheces-me e és feliz com isto:
Com um quase fardo.
Quiçá possa rematar
- Baseio-me em todas as vezes que riste
Comigo, por mim, sorrindo num misto
De admiração por este bardo
E de amor por este idiota.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

canino que não abana a cauda

Todas as portas deviam ser saídas daqui;
Não aguento o peso do ar,
Não aguento as pernas a cair:
Quero correr até que elas me caiam...
Mas quero correr para longe.
Longe de mim, fugir por aí.
Sinto o peito quente e a arfar
Os flashes, que me cercam, pairam
Comigo e cegam-me hoje.
A cegueira foi uma bênção para mim.
Não me adequo -
Não pertenço aqui nem a lado algum -,
Pertenço ao vento e à força de vontade
E gostava de me pertencer,
Porém, não me encontram forte de espírito.
[Nas quedas, perpetuo
Um fôlego de jejum:
As mazelas da idade]
Indeciso entre ser ou não ser,
Deixo o grito e deixo a frustração;
Abraço a notícia e este mundo de cão.

domingo, 18 de maio de 2014

tropecei no guarda-chuva; lembrei-me que chove amanhã

Ignobilidade. Espera-se apreendendo o que se esfuma pelos reflexos de superfícies transparentes. As imagens transfiguram algo de inútil para o que se ergue como algodão na mente.
Leviandade de espírito é quase um bem indispensável, mas sinto antes chumbo a deturpar-me uma autofocalização; não que muitas almas me acompanhem - e descobri que não as posso agarrar, que é mau e o mau não deve fazer-se -, não é algo estritamente necessário. Não, julgo viver de forma aceítável, mesmo com plena consciência de que condicionei uma realidade que se alia a um futuro próximo que tende a ter um humor perpétuo como o que tem teimado a instalar-se... e as repercussões são constantes.
A depressão é genérica. Ninguém tem depressão. É como um autodiagnóstico inócuo. O mal, creio eu, vem sempre da fome e eu gostava de ter menos.
As formas mal dizem o que queria ouvir, mas os vultos transmórficos também parecem estar com carência de desenvoltura das cordas vocais. Seria de salientar que organismos imaginários proferissem sons que não se assemelhassem a inspirações constipadas, próprias de uma inutilidade parasítica, que vive de relações de sucção com emoções ou positivismos que vagueiam, singelos e abrigados - ou tentam -, mas a chuva não poupa os que folgam em impermeabilizar-se.